Tema: Sem Educação não há Liberdade
Data: 7 a 19 de fevereiro de 2010
Local: Gummersbach -
Alemanha
Participante: João Victor Guedes, estudante de Ciências Econômicas. Presidente do
Diretório Regional de Minas Gerais e coordenador nacional da Comissão Permanente
de Movimento Estudantil da Juventude Democratas. São João del-Rei – MG

Retornei ao Brasil após duas
semanas de intensos debates e exposições políticas na Alemanha. Estava lá a
convite do Instituto Friedrich Naumann para a Liberdade, que atua em diversos
países em desenvolvimento e, no Brasil, é o maior parceiro da Juventude
Democratas.
Tal convite foi me feito para que
participasse como representante brasileiro do seminário internacional “No
Education, No Freedom” (“Sem educação não há liberdade”) onde seriam
trabalhadas políticas liberais para solucionar os problemas educacionais de
nosso país.
Recebi o convite por ser o atual
coordenador nacional de movimento estudantil da Juventude Democratas e ter, em
meu currículo, a participação em diversos eventos sobre o tema – seja como
ativista político ou como estudante de ciências econômicas.
Cheguei em Gummersbach, pequena
cidade do oeste alemão onde se situa a Theodor Heuss Akademie – a Academia
Internacional de Liderança do Instituto Friedrich Naumann –, no dia 7 de
fevereiro e tive nas duas semanas que se seguiram a maior experiência política
de minha vida – incluindo aí todas as atividades já realizadas junto aos
Democratas.
A expectativa já era alta devido
aos já conhecidos trabalhos realizados pelo instituto no Brasil mas, ainda
assim, foi totalmente superada. Estávamos reunidos em um total de 24 líderes,
incluindo ativistas do movimento estudantil, professores, sindicalistas,
diretores de instituições de ensino, jornalistas, membros de organizações não
governamentais, governistas e oposicionistas, orientados pelos doutores Stefan
Melnik e Monika Ballin em reuniões que se estendiam das nove horas da manhã às
oito da noite.
O modelo de condução proposto era
fantástico e permitiu que, passo a passo, fossemos conhecendo a realidade
política de cada país e, principalmente, as soluções liberais encontradas para
cada problema local. Este, no meu ponto de vista, foi o grande ponto do
seminário.

Iniciamos os trabalhos debatendo
sobre os conceitos que rondam a temática educacional, incluindo discussões
sobre como aprendemos, a importância dos certificados e os valores que são
ensinados nos estabelecimentos de ensino.
Percebemos, a partir daí, que a
educação vai muito além da escola e, muitas vezes, acontece de forma muito mais
intensa fora dela. Concluímos que, ao fixar uma grade curricular obrigatória, o
Governo acaba impondo seus próprios valores aos estudantes – sejam da idade que
for – e acaba tirando deles e dos pais o direito de decidir o que querem que
seja ensinado e aprendido. Outro ponto interessante, ainda neste campo, foi
reparar que, como realidade global, o ciclo educacional (básico, médio e
superior) tem se baseado muito mais em garantir um certificado do que em
proporcionar conhecimento – transformando estabelecimentos de ensino em meros
vendedores de diplomas.
Após debater tais conceitos para
entender a realidade educacional dos países em desenvolvimento – que mesmo
estando em situações políticas totalmente diferentes acabavam tendo muitas
similaridades – entramos na temática das soluções encontradas por cada um –
incluindo a Alemanha – para melhorar seu cenário educacional.
Iniciando pelo país onde estávamos
reunidos, tivemos a oportunidade de conhecer um pouco de sua história visitando
cidades, principalmente em sua parte oriental, que marcaram os avanços
culturais e educacionais da formação de seu Estado.
Visitamos Weimar, famosa por sua
extensa bagagem cultural que abrigou, entre outros, Nietzsche, Goethe e Bach,
sendo considerada uma importante capital cultural do velho continente a partir
do século XVIII – título que veio a receber em 1999 pela União Europeia.
Passamos pelo antigo campo de
concentração de Buchenwald, onde conhecemos uma parte triste da história global
e entendemos a necessidade da liberdade de conhecimento e educação para a
construção de uma sociedade verdadeiramente livre e fora de riscos de novas
ditaduras.
O destino era Dresden, metrópole
da antiga Alemanha Oriental que, totalmente destruída durante a Segunda Guerra
Mundial, mudou completamente a histórica cidade junto aos 40 anos de dominação
socialista. O novo capitalismo posterior à queda do Muro de Berlim, no entanto,
deu à cidade os benefícios da economia de mercado e, em uma rápida reconstrução,
promoveu seu retorno ao status de um dos maiores centros cultural, educacional
e político do país.
Por lá, como forma prática de
entender seus avanços educacionais, visitamos a Benno-Gymnasium, escola
privada, católica e modelo no país por orientar seus alunos de maneira
autônoma. Reconstruída no pós-1990, possui instalações fantásticas, um modelo
de orientação que dá aos alunos a liberdade de escolher o que irão estudar e,
com outros diversos benefícios, é acessível inclusive para famílias carentes sem
receber nenhum subsídio do governo.

Fomos então para Pirna, cidade com
origem datada no século XI e que possui hoje um jardim de infância modelo que
prioriza a capacidade individual das crianças. Em um modelo de orientação que
estimula a convivência social de crianças das mais variadas idades, estimula a
responsabilidade e o papel de cada um permitindo que os próprios alunos troquem
conhecimentos e experiências entre si. O modelo é exemplar até mesmo para
orientar relações corporativas entre adultos.
A cidade de Jena, nosso último
destino antes de retornar a Gummersbach, foi fascinante. Com pouco mais de cem
mil habitantes, abriga um enorme complexo educacional que a colocou hoje como
uma das cinquenta cidades que mais cresce na Alemanha. Com sua economia
especializada em produção industrial de alta tecnologia, o destaque vai para a
escola vocacional Janear Bildungszentrum que trabalha em parceria com as
empresas da região oferecendo educação técnica de até três anos e meio para os
jovens funcionários.
Em áreas que cercam as engenharias
mecatrônica, mecânica, ótica e elétrica, possui professores altamente
qualificados e laboratórios fantásticos. O custo bancado pelas empresas
parceiras é alto mas, mesmo assim, possuem uma grande lista de espera para novos
empreendimentos.
O grande exemplo tirado daí é a
formação específica para o mercado que, com grande demanda, é fundamental para
a qualificação técnica dos cidadãos de todas as nações.
Toda a história alemã, aliás, é um
grande exemplo com suas sucessivas reconstruções que demonstram como o seu povo
conseguiu aprender com os erros do passado. Em breves palavras sobre o último
século, perceberam a importância de uma sólida educação descentralizada para
evitar o mau do fascismo, e a necessidade de uma economia que estimule o livre
mercado empreendedor afastando o perigo do planejamento comunista.
Os demais cenários, narrados pelos
representantes dos países em desenvolvimento, apresentavam uma mescla de graves
problemas atrelados a soluções recentes que começavam a dar sinais de
eficiência.
O caso da África do Sul é
interessante uma vez que, por uma educação fortemente estimulada pelo governo,
trabalham para limpar o passado do apartheid e promover o crescimento da
nação que, mesmo sendo a mais desenvolvida do continente, apresenta graves
problemas semelhantes aos demais países subdesenvolvidos.
No leste europeu o que mais chama
a atenção é a corrupção herdada da antiga União Soviética que, mesmo após a
transição para o capitalismo, mantém uma série de vícios do antigo sistema. A
luta pela educação por lá é em direção a um sistema onde as pessoas sejam
realmente valorizadas por seus méritos produtivos e intelectuais, e não por sua
capacidade de burlar o sistema.
No Oriente Médio e em alguns
países asiáticos lutam contra o machismo e o radicalismo religioso e pretendem,
por meio da educação, informar e criar liberdade de expressão e escolha ao
invés de permitir a perpetuação das tradições por meio da falta de opção.
O grande exemplo para mim, no
entanto, veio da Índia. O jovem representante da organização não governamental
local School Choice, cujo slogan é “Financie estudantes, não escolas!”
apresentou o caso de sucesso por eles implantado por meio do sistema de vouchers.
Promoveram uma captação de
recursos no mercado – sem dinheiro público, aliás –, cadastraram escolas,
famílias carentes e ofereceram a estas um cheque com valor pré-fixado que as
permite escolher em qual escola matriculará seus filhos.
A grande vantagem da iniciativa é
que permite aos pais sem grandes disponibilidades financeiras escolher a qual
modelo de educação querem submeter seus filhos, ao invés de obrigá-los a seguir
o modelo único – e em geral falho – oferecido pelo governo. Outro grande ponto
do projeto é que fazem isso a partir de doações voluntárias ao invés de onerar
ainda mais o contribuindo como faz o Estado com taxações.
Esta iniciativa se tornou para
mim, mais do que um exemplo, um objetivo que pretendo trabalhar agora em meu
retorno ao Brasil por ter visto, na prática, como a sociedade civil pode
oferecer soluções viáveis para solucionar problemas muitas vezes dogmáticos
que, quando mencionados por partidos políticos em países periféricos, acabam
sendo rotulados de forma negativa pelo vícios do Estado de Bem Estar Social.
Percebi com esta viagem, como
podem ver, que nenhum problema é grande o suficiente para não ser contornado e
que, fazendo parte do governo ou não, sempre há uma maneira eficiente para se
trabalhar pela melhoria das oportunidades e das condições de vida do indivíduo.

Não existe ideia que seja
totalmente utópica ou utopia que não seja ao menos parcialmente aplicável. Cabe
a nós, ativistas da liberdade, planejá-las de maneira eficiente e
implementá-las de maneira eficaz para que possamos promover, passo-a-passo, um
caminho contrário a servidão.