A democracia ameaçada: o MST, o teológico-político e a liberdade

Denis Lerrer Rosenfield, Professor de Filosofia em Porto Alegre, escreve neste livro, editado pela Topbooks (www.topbooks.com.br) com o apoio do antigo Instituto Tancredo Neves, sobre a esquerda brasileira. Denis Lerrer Rosenfield apresenta em primeiro lugar o ponto central da moderna democracia liberal: O Estado de Direito, a Economia de Mercado e a Democracia representativa. Em seguida, ele analisa até que ponto a esquerda no Brasil está por trás destes fundamentos, ou antes, quais alternativas apresenta a esquerda.

Lerrer fala primeiramente das diversas correntes dentro do PT – Partido dos Trabalhadores, e também do MST - Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra, da CPT - Comissão Pastoral da Terra e da Teologia da Libertação.

As considerações de Lerrer são inquietantes. Ele demonstra que mesmo a parte do PT que apóia pragmaticamente a política do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva ainda está bem longe da clássica social-democracia européia. Maior ainda é a distância entre a política do governo e a esquerda do partido, que se mantém inflexível e firmemente apegada a velhas posições e estereótipos da época da vitória de Lula em 2002: Estado de Direito é tido como instrumento da burguesia para manter privilégios, a Democracia representativa é desqualificada como “apenas formalidade” e a Economia Mercado, do ponto de vista da esquerda, necessita de qualquer maneira de incontáveis intervenções e regulamentações do Estado.

O fracasso de sistema socialistas na Europa central, no leste da Europa, como também no terceiro mundo, é simplesmente ignorado. Em vez disto, cultiva-se um modelo de social-democracia abstrato e perfeito em si mesmo, como até agora nunca existiu e provavelmente nunca existirá em nenhum lugar do mundo. O ilusório retrato ideal de um socialismo perfeito é então confrontado com a versão real e defeituosa do capitalismo brasileiro. Naturalmente que, comparada com a utopia do socialismo a realidade capitalista torna-se sombria.

Em face ao apego do PT a posições ultrapassadas, que não são garantidas pela política de Lula, resta a questão (não apenas para Lerrer Rosenfield) de como se sustenta a política de governo do Presidente Lula nestas condições e com que rapidez o PT vai tomar novamente um rumo socialista depois da era Lula.

Com Lerrer Rosenfield fica também claro o porquê de Lula e o PT continuarem mostrando tanta simpatia por Hugo Chavez e Fidel Castro e tolerarem agrupamentos como o MST: assim se pode no PT, ao contrário do pragmatismo do dia-a-dia do governo, adorar novamente ídolos e se entusiasmar com o ideologismo, sem se levar em conta a realidade. Os Estados Unidos da América são por outro lado, apesar de toda a consideração do Presidente George W. Bush para com o Presidente Lula, a fonte do demoníaco programa oposto do poder “imperialista”.

A mesma coisa vale para a difamação, feita pelo PT, do governo anterior do Presidente Fernando Henrique Cardoso. Esta difamação é especialmente absurda porque o governo de Lula assumiu muitos dos elementos da política de Cardoso e continua executando-os com sucesso. Mas declarar o governo anterior como responsável por todos os problemas possíveis e como modelo de inimigo leva à criação de um bando uniforme entre as alas apartadas do PT. A difamação de Cardoso impede ao mesmo tempo, do ponto de vista da esquerda, uma possível aproximação entre a parte modesta do PT e o PSDB, um projeto para o qual Lerrer Rosenfield mostra simpatia.

Mais problemática ainda é a política do MST e do CPT. As duas organizações, como mostra Lerrer Rosenfield, apostam na luta de classes e procuram por uma revolução social com a eliminação do Estado de Direito, da Democracia Representativa e da Propriedade Privada. Freqüentemente o MST e a CPT se identificam com Hugo Chavez, Fidel Castro e Che Guevara, mas também com a revolução russa de 1917 e com o comunismo chinês de Mao Tse-Dong. Crimes e falhas dos grandes ídolos são simplesmente esquecidos; para os milhões de vítimas do senhor da revolução socialista, muitos dos quais cristãos convictos, nem o MST, nem a CPT como representante da igreja, têm uma palavra de pesar.

Neste contexto Lerrer Rosenfield prova também que não está correta a idéia de que o MST e o CPT só estão preocupados em tornar produtivas para os sem-terra aquelas terras "improdutivas". MST e CPT não querem somente uma agricultura capitalista "mais produtiva", mas sim o socialismo. Seu objetivo é coletivizar todas as propriedades privadas. Com sua luta travada contra os grandes proprietários de terras, MST e CPT não querem de forma alguma tornar o sem-terra de agora um pequeno proprietário. Isto iria colocar em alto risco o sonho do socialismo. Uma reforma agrária que objetiva fazer dos sem-terra proprietários é diabólica para o MST e CPT. Ambos apostam muito mais em propriedade coletiva. A competitividade internacional brasileira no agrobussiness, tão importante para o comércio exterior do Brasil, deve ser destruída. Para conseguir isto o MST e a CPT utilizam conscientemente a quebra das leis, a violência e a intimidação. Até mesmo as crianças, como mostra Lerrer Rosenfield, já são educadas para a luta de classes e ódio entre as classes. De qualquer maneira, os acampamentos dos sem-terra estão sob o firme controle do MST. Liberdade de opinião não é bem aceita. Doutrinação, por outro lado, é muito bem aceita. Lerrer Rosenfield vê o MST como um partido político disfarçado. Porém, as suas análises lançam a pergunta, se não deveríamos ver o MST no final das contas como uma seita política com um invólucro religioso.

O MST pode contar com estes aliados. CPT e os teólogos da libertação apóiam o MST criando pseudo-analogias à Bíblia. Assim, todos os seguidores do MST são declarados pela CPT como os escolhidos da Bíblia. Os interesses do MST, e mesmo seus procedimentos, incluindo os crimes, são não somente aceitos sem crítica como também abençoados. Os ativistas do MST são festejados como heróis, honrados como reencarnações de Jesus Cristo e tidos como exemplos.

Os teólogos da libertação dão a impressão de que o movimento dos sem-terra e seus seguidores são por si só moralmente irrepreensíveis e estão dentro da lei, e todos os grandes proprietários de terras são por si só pecadores e criminosos que não pertencem à comunidade de Cristo e para os quais não existe nenhuma redenção, com exceção naturalmente da desapropriação. A responsabilidade individual pela prépria conduta, tão importante no cristianismo, é com isto negada em nome da luta de classes. Lerrer Rosenfield mostra, utilizando como exemplo uma pesada crítica à Teologia da Libertação feita pelo Cardeal Ratzinger (hoje Papa Benedito XV), que esta posição é insustentável do ponto de vista da administração da Igreja católica.

O fato de que muitos no PT e no governo de Lula continuem mostrando grande simpatia pelo MST, e não somente figuras estatais, como também uma companhia como a Petrobrás apóiem financeiramente as atividades do MST, deixa claro para Lerrer Rosenfield o ínfimo interesse do PT com o Estado de Direito e com a Democracia.

Lerrer Rosenfield escreveu um livro de análise impressionante, interessante do início ao fim, mas que, infelizmente, aponta para um resultado deprimente. Um liberal que quiser entender a fundo a esquerda, encontrará em Lerrer Rosenfield muito material para pensar.

Rainer Erkens
São Paulo, abril de 2007