A
Cabeça do Brasileiro
Por que no Brasil os liberais têm
tantos problemas para ganhar apoio entre os eleitores? O livro "A cabeça
do brasileiro" de Alberto Carlos Almeida, Diretor do Instituto Análise em
São Paulo, dá algumas respostas que valem a pena a estudar. O livro contém os
resultados da Pesquisa Social Brasileira (PSB) empreendida, entre outros, pela
Universidade Federal Fluminense. As respostas dos eleitores mostram que muitos
brasileiros amam o Estado, têm preconceito de cor, aceitam o jeitinho e até a
corrupção, são fatalistas, familistas, pouco
democráticos e não dispõem de espírito público.
Para Almeida, o Brasil está dividido
em um país moderno, que se encontra especialmente entre pessoas com alto nível
de escolaridade, entre jovens e pessoas com alta renda no sul e sudeste do
país, e um país arcaico que caracteriza o contrário: um baixo nível de
escolaridade, pessoas mais velhas e com baixa renda. Este Brasil arcaico é
especialmente forte no nordeste do país.
Almeida define o liberalismo como
uma mensagem moderna que é basicamente "igualitária", porque aceita
que todos os cidadãos têm o mesmo valor e os mesmos direitos, enquanto que uma
grande parte dos brasileiros ainda vive num mundo "hierárquico" onde
pensamentos tradicionais e anti-individualistas ainda
dominam e onde o paternalismo continua forte.
Para os leitores do livro fica claro
que vai ser difícil ou mesmo impossível para o liberalismo convencer a maioria
dos eleitores dos seus benefícios. Assim, para Almeida, é típico que a
privatização de algumas empresas públicas - a privatização sendo claramente
rejeitada pela maioria - foi mais o resultado de fatores exógenos, de ideias importadas do exterior e aplicadas por uma elite
independente da opinião pública do que uma expressão dos desejos dos
brasileiros. Fica uma das contradições, bem observadas por Almeida, de que a
maioria dos brasileiros rejeita a privatização de empresas públicas, mas ao
mesmo tempo tem mais confiança em instituições privadas como pequenas e médias
empresas, a imprensa ou a igreja católica do que em instituições estatais.
O conteúdo do livro de Almeida,
muito bem escrito, não é fácil para liberais, porque revela como é difícil e
continuará sendo, ganhar maiorias para a ideia da liberdade. Explica bem porque a mensagem liberal
encontra tanta resistência e porque é tão fácil para políticos, tanto da
esquerda quanto da direita, que favorecem um grande papel do Estado na economia
e na sociedade, influenciar o debate público num sentido antiliberal e muitas
vezes também antimoderno.
Mas Almeida também tem uma mensagem
de esperança para os liberais. Já que o espírito antiliberal, arcaico,
conservador e hierárquico depende mais do que tudo do nível de escolaridade do
brasileiro, o número continuamente crescente dos jovens que acabam o ensino
médio e entram para o ensino superior abre novas oportunidades para os
liberais. Para Almeida a solução é clara:
"Para tornar o Brasil mais
liberal na economia é preciso massificar, e muito, o ensino superior: História
e herança não mudam, mas o nível de escolaridade traz alterações de consequências bastante profundas para qualquer sociedade.
Entre elas, a consolidação da democracia."
Para o Instituto Friedrich Naumann
para a Liberdade, que dedica o seu trabalho à educação de jovens brasileiros e
à cooperação com eles, esta é uma confirmação de que estamos no caminho certo.
Mas os resultados da PSB também
mostram que o caminho ainda será longo. Se mesmo entre as pessoas com educação
superior, o grupo mais moderno e mais aberto à mensagem liberal no Brasil, 26% creem que Deus decide o destino, 33% considera o “jeitinho”
como certo, 75% rejeita o homossexualismo e 45% concorda que o governo deve
controlar os preços de todos os serviços públicos, é evidente que a luta por
uma sociedade livre vai precisar de muita paciência.
Rainer Erkens
São Paulo